Dez anos de produção de pinhão no Paraná, Brasil
Vânia Beatriz Cipriani1*
https://orcid.org/0000-0001-5036-0811
* Contato principal
Ivar Wendling2
https://orcid.org/0000-0002-1008-6755
1 Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul/UEMS, Brasil. <vania.cipriani@uems.br>.
2 Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/Embrapa Florestas, Colombo/PR, Brasil. <ivar.wendling@embrapa.br>.
Recebido em 18/04/2024 – Aceito em 01/10/2024
RESUMO – O pinhão é um alimento tradicional e muito apreciado nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Considerado um alimento funcional, rico em amido, lipídeos, proteínas, fibras alimentares e nutrientes, o pinhão tem ganhado destaque no mercado nacional nas últimas décadas. Atualmente, o estado do Paraná é o segundo maior produtor de pinhão do país. Diante disso, objetivou-se analisar a produção e comercialização do pinhão no estado do Paraná entre os anos de 2013 e 2022. Os dados de produção, em toneladas, e do valor bruto da produção, em reais, foram obtidos junto ao Departamento de Economia Rural do Paraná. Ao longo do período analisado é possível verificar oscilações no total de toneladas produzidos, assim como no valor de produção. O Paraná produziu pouco mais de 38 mil toneladas de pinhão nesse período, arrecadando cerca de R$ 190 milhões. A região centro-sul do estado teve destaque tanto na produção quanto no valor de produção do pinhão, sendo os municípios de Pinhão, Guarapuava e Inácio Martins os mais produtivos e com maior valor de arrecadação. O preço médio de venda praticado no estado variou entre R$ 4,19 e 6,78 o quilo.
Palavras-chave: Araucaria angustifolia; comercialização de pinhão; produto florestal não madeireiro; valor bruto da produção.
Ten years of pinhão production in Paraná, Brazil
ABSTRACT – Pine nuts are a traditional food, much appreciated in the south and southeast regions of Brazil. Considered a functional food, rich in starch, lipids, proteins, dietary fiber and nutrients, pine nuts have gained prominence in the national market in recent decades. Currently, the state of Paraná is considered the second largest producer of pine nuts in the country. Therefore, the objective was to analyze the production and commercialization of pine nuts in the state of Paraná between the years 2013 and 2022. Production data, in tons, and gross production value, in reais, were obtained from the Department of Economics Rural Paraná. Throughout the analyzed period, it is possible to see fluctuations in the total tons produced, as well as in the production value. Paraná produced just over 38 thousand tons of pine nuts during this period, earning around 190 million reais. The center-south region of the state stood out in both the production and production value of pine nuts, with the municipalities of Pinhão, Guarapuava and Inácio Martins being the most productive and with the highest collection value. The average selling price charged in the state varied between 4.19 and 6.78 reais per kilo.
Keywords: Araucaria angustifolia; gross production value; marketing of pinhão; non-yimber forest product.
Diez años de producción de pinhão en Paraná, Brasil
RESUMEN – Los piñones son un alimento tradicional y muy apreciado en las regiones sur y sureste de Brasil. Considerado un alimento funcional, rico en almidón, lípidos, proteínas, fibra dietética y nutrientes, los piñones han ganado protagonismo en el mercado nacional en las últimas décadas. Actualmente, el estado de Paraná es considerado el segundo mayor productor de piñones del país. Por lo tanto, el objetivo fue analizar la producción y comercialización de piñones en el estado de Paraná entre los años 2013 y 2022. Los datos de producción, en toneladas, y el valor bruto de producción, en reales, fueron obtenidos del Departamento de Economía Rural de Paraná. A lo largo del período analizado, es posible observar fluctuaciones en las toneladas totales producidas, así como en el valor de la producción. Paraná produjo poco más de 38 mil toneladas de piñones en este período, generando alrededor de 190 millones de reales. La región centro-sur del estado se destacó tanto en la producción como en el valor de producción de piñones, siendo los municipios de Pinhão, Guarapuava e Inácio Martins los más productivos y con mayor valor de recolección. El precio medio de venta cobrado en el estado osciló entre 4,19 y 6,78 reales por kilo.
Palabras clave: Araucaria angustifolia; comercialización de pinhão; producto forestal no maderable; valor bruto de producción.
Como citar:
Cipriani VB, Wendling I. Dez anos de produção de pinhão no Paraná, Brasil. Biodivers. Bras. [Internet]. 2025; 15(2): 14-21. doi: 10.37002/biodiversidadebrasileira.v15i2.2585
Introdução
Pinhão é a semente produzida pela Araucaria angustifolia, uma conífera arbórea nativa do Brasil, popularmente conhecida como pinheiro-do-Paraná, pinheiro-brasileiro ou araucária [1]. A espécie ocorre em todos os estados da região Sul do Brasil, além de locais com elevada altitude na região Sudeste, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais [2]. O período de disponibilidade de pinhão varia de acordo com o local, especialmente em função das características edafoclimáticas; no Paraná, as pinhas estão maduras entre março e setembro; em São Paulo e Santa Catarina, de abril a julho; e no Rio Grande do Sul, de abril a agosto [3]. As sementes apresentam características recalcitrantes, ou seja, possuem rápida deterioração após a dispersão, podendo perder totalmente a viabilidade em 120 dias [4].
O pinhão tem formato oblongado, com tamanho entre 3 e 8 cm de comprimento, entre 1 e 2,5 cm de largura, com peso médio de 8,7 g [1]. Sua estrutura é composta pela casca/testa, embrião e o endosperma ou amêndoa de cor branca ou róseo clara [5][6]. Por sua composição, o pinhão pode ser considerado um alimento funcional, com baixo índice glicêmico, alta composição de amido, além de proteínas, lipídeos, fibras, cálcio, ferro, magnésio, potássio e compostos fenólicos [7][8].
As sementes da araucária fazem parte do uso, manejo e comércio tradicional de pequenos agricultores e extratores de pinhão em diferentes regiões do Sul e Sudeste do Brasil [9]. A coleta do pinhão caracteriza-se como trabalho familiar, realizado predominantemente por pessoas que residem no entorno dos remanescentes de matas de araucárias [10]. A venda do pinhão pode gerar uma renda mensal de, aproximadamente, um a dois salários mínimos por família, sendo o comércio do pinhão uma das três principais fontes de renda para essas famílias [11].
O estado do Paraná foi considerado o maior produtor de pinhão do país; entre os anos de 2014 e 2017 o estado foi responsável por 38,7% da produção nacional [12]. O valor bruto de produção do pinhão no Paraná tem apresentado crescimento constantes nas últimas décadas [13], mesmo com fluxo de comercialização com baixíssimo grau de industrialização, decorrente basicamente de aspectos culturais, restrições ditadas pela sazonalidade e quantidade produzida do produto [14].
Com base nisso, o objetivo deste estudo foi analisar a comercialização de pinhão no estado do Paraná, entre os anos de 2013 e 2022, através do volume produzido e do valor bruto de produção arrecadado no estado.
Material e Métodos
Os dados utilizados neste artigo foram coletados junto ao Departamento de Economia Rural do Paraná (DERAL/PR). Esses dados referem-se à produção (P), ou seja, o volume produzido, em toneladas, nos municípios, e o valor bruto de produção (VBP), que representa o valor financeiro, em reais (R$), arrecadado com a comercialização do produto. Dados da série histórica entre os anos de 2013 e 2022, foram obtidos através de consulta digital, e podem ser encontrados através do ende-reço eletrônico https://www.agricultura.pr.gov.br/vbp. Tais dados são coletados pelo DERAL em conjunto a instituições como IDR-PR, IBGE, prefeituras, cooperativas, revendedores de insumos, cerealistas e outras entidades do setor agropecuário.
Os dados foram analisados de forma descritiva. A evolução do preço de venda foi obtida por meio da razão entre o VBP e a quantidade produzida. A deflação do VBP e do preço de venda foi realizada utilizando o Índice Geral de Preços de Mercado, ou seja, com IGP-M. Esse índice registra a inflação desde os preços pagos no atacado até o valor pago pelo consumidor final, abrangendo a variação de preços de bens e serviços diversos. Os valores foram deflacionados para preços de 2022, último ano da série histórica.
Resultados
O estado do Paraná produziu 38.135 t de pinhão entre os anos de 2013 e 2022, com produção anual variando entre 3 e 4 mil t. A maior produção foi observada no ano de 2021 com 4.424 t, e menor produção no ano de 2014 com 3.036 t (Figura 1).
O VBP nos dez anos analisados foi de R$ 190 milhões em todo o estado. Assim como para a produção, o VBP apresentou variação ao longo dos anos 2013 e 2022 (Figura 2). O ano de 2019 deteve a maior arrecadação da série histórica, movimentando R$ 23.193.937,00 em todo o estado, contrastando com o ano de 2015, cuja arrecadação foi de R$ 13.427.592,00.
Dos 399 municípios que compõem o Paraná, em 134 foi registrada produção de pinhão, o que representa 33,5% do estado. Destes, 32 municípios têm produção média inferior a 1 t.ano-1. Seis municípios são responsáveis por 45% da produção (t) total do estado, todos localizados na região centro-sul: Guarapuava, Imbituva, Prudentópolis e Turvo, destacam-se os municípios de Pinhão, com produção média de 552 t.ano-1, seguido de Inácio Martins, com 414 t.ano-1 (Figura 3).
Os municípios de Guarapuava, Inácio Martins, Pinhão e Turvo além da maior produção já mencio-nada, destacam-se como os maiores VBP arrecadados, acima de R$ 10 milhões por ano (Figura 4). Novamente, destacam-se os municípios de Pinhão e Inácio Martins com média de R$ 25.823.731,00 e R$ 20.672.662,58 arrecadados por ano, respectivamente.
O preço médio de comercialização do pinhão (R$.kg-1) também foi variável na série histórica analisada (Figura 5). No ano de 2014 o valor de venda médio praticado no estado foi de R$ 6,78, já no ano de 2021, observa-se o menor valor praticado entre 2013 e 2022, de R$ 4,19 o quilo do pinhão.
A variação na produção do pinhão ao longo dos anos já foi relatada anteriormente, como, por exemplo, no estudo desenvolvido por Marques et al. [12], ao avaliar o comércio de pinhão no estado de Minas Gerais. Diversos fatores podem ser relacionados a esse fenômeno, como o valor de comercialização do produto que pode motivar ou desmotivar a coleta, a informalidade da cadeia produtiva, as mudanças naturais de produtividade da espécie, entre outros [15][2].
A araucária passou por intenso processo de exploração, que resultou na redução da área de ocorrência e do número de indivíduos [2]. A coleta do pinhão é realizada de forma extrativista, sendo que a implantação de pomares para produção de pinhão ainda é bastante recente [16]; desse modo, quando se pensa em produção é necessário considerar o tamanho da área de coleta, a quantidade de indívuos produtivos, o número de áreas para coleta e caracteristicas edafoclimáticas que exerçam influencia sobre a quantidade de pinhão produzido, coletato e consequentemente, comercializado em cada município anualmente.
A região centro-sul do estado destacou-se na quantidade produzida de pinhão, assim como no valor arrecadado (VBP). Tal região está localizada no Terceiro Planalto Paranaense e abrange uma área de 2.638.104 ha, que corresponde a cerca de 13% do território do estado, dividido em 24 municípios. Os municípios de Guarapuava e Pinhão destacam-se em termos de presença de cobertura vegetal [17], favorecendo a atividade extrativista.
Somente no ano de 2019 o setor agrícola da região contribuiu com cerca de 52% do VBP, a pecuária 38% e os produtos florestais com 10% do valor total arrecadado no estado [18]. Os municípios da região centro-sul são destaque na produção do pinhão desde o final do século passado; na safra 98/99 o município de Pinhão (maior produtor registrado neste estudo) foi responsável por 69,8% da produção do estado [14].
O VBP do pinhão paranaense apresentou crescimento médio anual de 16,5% a.a. a partir de 1995 até 2010; e na primeira década do século XXI (2001 a 2010), o VBP do pinhão no Paraná saltou de R$ 816 mil para a casa dos milhões de reais. Esses aumentos estão atrelados ao crescimento do agronegócio brasileiro e às políticas públicas voltadas à agricultura familiar [18].
Faz-se necessário salientar que os valores de produção aqui apresentados são dados oficiais coletados nas prefeituras, cooperativas, revendedores de insumos, cerealistas, e outros canais de comércio formal. Em contrapartida, muitos coletores de pinhão optam pelo comércio informal na beira de estradas, em semáforos, entre outros [19], podendo, dessa forma, ocasionar a subestimação dos valores reais da produção no estado.
O preço de venda do pinhão oscilou a cada ano da série histórica trabalhada. Variações no preço entre os anos e dentro do mesmo ano já foram relatadas por outros autores [20]. Apesar disso, no mercado atacadista paranaense, os preços do pinhão vêm subindo ano após ano [21]. Uma característica fundamental dos preços dos produtos agrícolas é a sua instabilidade, ou seja, eles apresentam um elevado grau de variabilidade ao longo do tempo [22]. No caso do pinhão, a sazonalidade dos preços decorre principalmente devido a colheita não ocorrer ao longo de todo o ano, sendo concentrada entre os meses de abril a julho, além do baixo nível de industrialização do produto, informalidade da cadeia produtiva, entre outros. De um modo geral, os preços apresentam níveis relativamente mais altos na época da entressafra, onde há menor oferta [23].
Para o dono da propriedade ou coletor, a alternativa mais viável, quando possível, é fazer a comercialização diretamente para o consumidor final. Quando intermediários são envolvidos na cadeia de produção, os preços praticados sofrem acrescimento de até 317% [14]. Se o preço pago aos produtores pelos intermediários varia entre R$ 1,00 e 1,50 o quilo, o consumidor final pode chegar a pagar até R$ 6,00 o quilo [22].
Um importante marco para impulsionar a produção e comercialização do pinhão foi sua inclusão na Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), em 2014. Na prática, preços mínimos são delimitados pelo Governo Federal com base na previsão de produção de cada região. Caso o produtor comercialize seu produto por um preço abaixo do mínimo ele poderá ser ressarcido da diferença, pela chamada subvenção [24]. A PGPM traz incentivo para produtores rurais não apenas no estado do Paraná, visto que, apesar da tendência de aumento da produção de pinhão, ainda são necessários mecanismos legais e tecnológicos para impulsionar o desenvolvimento desse setor.
Conclusão
A produção de pinhão e o valor bruto de produção apresentaram oscilação ao longo dos anos 2013 e 2022. Da mesma forma o preço médio de venda do pinhão no Paraná oscilou entre R$ 4,00 e quatro e R$ 6,00. A região centro-sul é a mais produtora do estado, com destaque para os municípios de Pinhão, Guarapuava e Inácio Martins.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Departamento de Economia Rural do Paraná (DERAL/PR) por fornecer os dados de produção e valor bruto de produção. E à CAPES pela concessão de bolsa de doutorado à primeira autora.
Referências
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Figura 1 – Produção de pinhão, em toneladas (t), no estado do Paraná entre 2013 e 2022. Fonte: DERAL/PR (2024).
Figura 2 – Valor bruto de produção (R$) do pinhão no estado do Paraná entre 2013 e 2022. Fonte: DERAL/PR (2024).
Figura 3 – Mapa da distribuição da produção média anual de pinhão (t) no estado do Paraná entre os anos de 2013 e 2022.
Figura 4 – Mapa da distribuição de distribuição do VBP médio anual (R$ de 2022) no estado do Paraná entre os anos de 2013 e 2022. Fonte: DERAL/PR (2024).
Figura 5 – Preço médio do pinhão (R$de2022.kg-1) praticado no estado do Paraná entre os anos de 2013 e 2022. Fonte: DERAL/PR (2024).
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