Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade Biodiversidade Brasileira, 16(3): e2905, 2026
https://doi.org/10.37002/biodiversidadebrasileira.v16i3.2905
ARTIGO CIENTÍFICO
Dieta do pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em
observações de campo e análise de dados de ciência cidadã
Ulisses Borges Soares Marques
1
, Breno de Farias Nilo
2
, Wellington Martins dos Santos Júnior
2
, Cristiano Marcelo da
Silva Nascimento
3
, Egberto Araujo
1
, Antônio Sérgio Farias-Castro
4
, Antônio Emanuel Barreto Alves de Sousa
5
*
*Contato principal
1
Universidade Federal da Paraíba/UFPB, Campus II, Medicina Veterinária, Areia/PB, Brasil.
2
Autônomo e colaborador do Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves da Caatinga, Brasil.
3
Prohabitat Assessoria Ambiental, São Paulo/SP, Brasil.
4
Movimento Pró-Árvore, Fortaleza/CE, Brasil.
5
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade/ICMBio, Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves
Silvestres/CEMAVE, Cabedelo/PB, Brasil..< antonio.sousa@icmbio.gov.br >.
Como citar:
Marques UBS, Nilo BF, Santos Júnior WM, Nascimento CMS,
Araujo E, Farias-Castro AS, et al. Dieta do pintassilgo-do-nordeste
Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em observações de
campo e análise de dados de ciência cidadã. Biodivers. Bras.
[Internet]. 2026; 16(3): e2905.
doi:10.37002/biodiversidadebrasileira.v16i3.2905
Recebido em 13/02/2026 – Aceito em 24/08/2026
Editora temática:
Keila Nunes Purificação
RESUMO – O pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839), espécie endêmica do
Brasil e classificada como vulnerável, tem sua sobrevivência ameaçada principalmente pela
captura ilegal e outros fatores como hibridização, envenenamento, perda de hábitat e mudanças
climáticas. Este estudo teve como objetivo ampliar o conhecimento sobre a dieta e os hábitos
alimentares da espécie, a fim de subsidiar estratégias de manejo e conservação. A pesquisa foi
conduzida na Área de Proteção Ambiental do Cariri (Cariri Paraibano), em Areia (Brejo
Paraibano) e Bayeux (Região Metropolitana de João Pessoa), por meio de observações em campo
com auxílio de binóculos, câmeras fotográficas e análises de registros disponíveis em plataformas
de ciência cidadã (WikiAves, eBird e iNaturalist), com as espécies vegetais consumidas
identificadas e catalogadas. Ao todo, foram registradas 28 espécies vegetais na dieta, sendo 14
nativas e 14 exóticas, com predominância da família Asteraceae (35,71%). Também foi observado
um possível consumo de ovos de insetos. O detalhamento da dieta de S. yarrellii (Audubon, 1839)
contribui significativamente para o entendimento de sua ecologia, oferecendo auxílio para ações
conservacionistas, identificação de áreas prioritárias para soltura de indivíduos reabilitados e
criação de unidades de conservação.
Palavras-chave: alimentação, Asteraceae, aves, conservação, Fringillidae.
Diet of the yellow-faced Siskin Spinus yarrellii (Audubon, 1839) based on field observations
and citizen science data analysis
ABSTRACT – The Yellow-faced Siskin Spinus yarrellii (Audubon, 1839), a species endemic to
Brazil and classified as vulnerable, has its survival threatened mainly by illegal capture and other
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade Biodiversidade Brasileira, 16(3): e2905, 2026
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Dieta do pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em observações de campo e análise de dados de ciência cidadã
factors such as hybridization, poisoning, habitat loss, and climate change. This study aimed to
expand knowledge regarding the diet and feeding habits of the species in order to support
management and conservation strategies. The research was conducted in the Cariri Environmental
Protection Area (Paraíba Cariri), in Areia (Paraíba Brejo), and Bayeux (João Pessoa Metropolitan
Region), through field observations using binoculars, cameras and the analysis of records
available on citizen science platforms (WikiAves, eBird, and iNaturalist). The plant species were
identified and catalogued. In total, 28 plant species were recorded in the diet, 14 native and 14
exotic, with a predominance of the Asteraceae family (35.71%). Possible consumption of insect
eggs was also observed. Detailing the diet of S. yarrellii (Audubon, 1839) contributes significantly
to the understanding of its ecology, offering support for conservation actions, the identification of
priority areas for the release of rehabilitated individuals, and the creation of conservation units.
Keywords: feeding, Asteraceae, birds, conservation, Fringillidae.
Dieta del Jilguero Cariamarillo Spinus yarrellii (Audubon, 1839) basada en observaciones
de campo y análisis de datos de ciencia ciudadana
RESUMEN – El Jilguero Cariamarillo Spinus yarrellii (Audubon, 1839), especie endémica de
Brasil y clasificada como vulnerable, tiene su supervivencia amenazada principalmente por la
captura ilegal y otros factores como la hibridación, el envenenamiento, la pérdida de hábitat y el
cambio climático. Este estudio tuvo como objetivo ampliar el conocimiento sobre la dieta y los
hábitos alimentarios de la especie, con el fin de fundamentar estrategias de manejo y conservación.
La investigación se llevó a cabo en el Área de Protección Ambiental de Cariri (Cariri de Paraíba),
en Areia (Brejo de Paraíba) y Bayeux (Región Metropolitana de João Pessoa), mediante
observaciones de campo con la ayuda de binoculares, cámaras fotográficas y también el análisis
de registros disponibles en plataformas de ciencia ciudadana (WikiAves, eBird e iNaturalist). Las
especies vegetales consumidas fueron identificadas y catalogadas. En total, se registraron 28
especies vegetales en la dieta, 14 nativas y 14 exóticas, con predominio de la familia Asteraceae
(35,71%). También se observó un posible consumo de huevos de insectos. El detalle de la dieta
de S. yarrellii (Audubon, 1839) contribuye significativamente a la comprensión de su ecología,
ofreciendo bases para acciones conservacionistas, la identificación de áreas prioritarias para la
liberación de individuos rehabilitados y la creación de unidades de conservación.
Palabras clave: alimentación, Asteraceae, aves, conservación, Fringillidae.
Introdução
No Brasil, ocorrem naturalmente o pintassilgo Spinus magellanicus (Vieillot, 1805) e o pintassilgo-do-
nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839), e uma terceira espécie foi introduzida no Sul do país, o pintassilgo-
europeu Carduelis carduelis (Linnaeus, 1758) [1, 2]. As espécies do gênero Spinus são muito apreciadas por
terem o canto melodioso, pela beleza da plumagem e pela relativa facilidade de manutenção sob cuidados
humanos.
S. yarrellii é uma espécie monotípica, endêmica do Nordeste do Brasil, com ocorrência principalmente na
Caatinga e na Mata Atlântica. Apesar da sua ampla distribuição, é extremamente rara e categorizada como
vulnerável à extinção [3]. A captura ilegal de S. yarrellii na natureza tem sido a principal causa de seu declínio
populacional [3]. A perda de hábitat também é uma ameaça importante, pois, quando os hábitats de uma espécie
endêmica são danificados e/ou fragmentados por diversas atividades humanas, sua área de distribuição e seu
tamanho populacional são reduzidos [4]. Hibridização, envenenamento e mudanças climáticas também são fatores
que afetam negativamente a conservação da espécie [3].
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Marques UBS, et al.
A biologia de S. yarrellii ainda é pouco conhecida [3]. Aspectos da sua reprodução, incluindo as
características do ninho, tamanho da ninhada, período de incubação e tempo de permanência dos filhotes no ninho
foram descritos recentemente [5]. Os membros da subfamília Carduelinae, à qual pertence o gênero Spinus, são
considerados os granívoros mais especializados entre os Passeriformes, possuindo a mandíbula afiada e adaptada
para abrir sementes de dicotiledôneas com tegumento mais duro [6]. No entanto, a composição da dieta de S.
yarrellii permanece pouco conhecida, representando uma lacuna de conhecimento, cujo preenchimento é
essencial para subsidiar ações de manejo e conservação da espécie.
O objetivo deste trabalho foi contribuir para o conhecimento da dieta e dos hábitos alimentares de S.
yarrellii, por meio de observações em campo e da análise de registros provenientes de plataformas de ciência
cidadã.
Materiais e Métodos
Área de estudo
As observações em campo foram realizadas na Área de Proteção Ambiental do Cariri (APA do Cariri), no
município de Areia, localizado na microrregião do Brejo Paraibano, e no município de Bayeux, integrante da
Região Metropolitana de João Pessoa e limítrofe à capital paraibana (Figura 1).
A APA do Cariri é uma unidade de conservação instituída pelo Decreto Estadual nº 25.083/2004, com
área de 18.560 ha e que abrange os municípios de Boa Vista, Cabaceiras e São João do Cariri. Está localizada na
região onde se registra o menor índice pluviométrico do Brasil, não ultrapassando 600 mm/ano, e que sofre intenso
processo de desertificação [7]. Sua vegetação predominante é a caatinga arbustivo-arbórea, havendo também
alguns remanescentes de caatinga arbórea. As observações em campo ocorreram principalmente em áreas
alteradas para uso agrícola (Figura 2B).
O município de Areia tem precipitação anual em torno de 1.300 mm, com vegetação de mata úmida e
floresta seca de transição, sendo considerada um brejo de altitude. As observações em campo foram realizadas na
zona rural do município, em áreas com presença de pasto e árvores esparsas, e em bordas de floresta (Figura 2C).
O município de Bayeux situa-se próximo ao litoral, com vegetação de Mata Atlântica, incluindo floresta
de tabuleiro e manguezais. As observações ocorreram na zona urbana do município, em pequenos remanescentes
de vegetação nativa circundados por áreas abertas com vegetação herbácea (Figura 2A) e em áreas com vegetação
exótica utilizada na arborização urbana.
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Dieta do pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em observações de campo e análise de dados de ciência cidadã
Figura 1 – Localização das áreas de estudo em campo.
Figura 2 – Imagens de algumas localidades onde foram feitas as observações de S. yarrellii se alimentando: A)
remanescente de vegetação nativa no município de Bayeux; B) área alterada por uso agrícola na APA do Cariri; e C)
área de pasto com árvores esparsas no município de Areia. Fotos: Murilo Arantes (A), Augusto Lacerda (B) e Ulisses
Marques (C).
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Marques UBS, et al.
Coleta de dados
As coletas de dados em campo ocorreram entre janeiro de 2024 e maio de 2026, contemplando tanto a
estação seca quanto a estação chuvosa. Foi utilizado o método de busca ativa com o uso de binóculos e câmeras
fotográficas. Na APA do Cariri, os registros de alimentação contemplaram indivíduos de vida livre e indivíduos
oriundos de solturas experimentais (18 indivíduos apreendidos por órgãos ambientais e que passaram por
quarentena, reabilitação, soltura e monitoramento pós-soltura). Já em Areia e Bayeux, o estudo contemplou
apenas indivíduos de vida livre. O esforço amostral total, considerando as três áreas de estudo, foi de 600 h de
observação em campo.
Em complementação ao esforço de campo, foram feitas análises nas plataformas de ciência cidadã
WikiAves, eBird e iNaturalist. Foram verificadas individualmente todas as fotos de S. yarrellii presentes nessas
plataformas, sem utilização de filtros de busca, totalizando 615 fotos (474 fotos no WikiAves, 103 fotos no eBird
e 38 fotos no iNaturalist). Desse total, foram consideradas na análise apenas as fotos que continham registros de
consumo de alguma parte da planta pela espécie.
A identificação das espécies vegetais consumidas por S. yarrellii foi realizada pelos autores com auxílio
da base de dados Flora do Brasil, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, para determinar o status de ocorrência
(nativa ou exótica) das espécies vegetais e da base de dados Plants of the World Online (POWO), do Royal
Botanic Gardens, Kew, para a padronização da nomenclatura taxonômica.
Este estudo está contemplado pela Autorização de Pesquisa nº 83500, emitida pelo Sistema de Autorização
e Informação em Biodiversidade (Sisbio).
Resultados
Foram identificadas 28 espécies vegetais utilizadas na dieta de S. yarrellii, das quais 14 são nativas do
Brasil e 14 são exóticas (Figura 3; Tabela 1), sendo a maior parte delas de porte herbáceo. A espécie foi capaz de
forragear tanto em ambientes naturais quanto em ambientes antropizados. Durante os trabalhos de campo, foi
possível observar que S. yarrellii faz deslocamentos consideráveis para se alimentar das espécies vegetais que
compõem a sua dieta. Isso ocorre pelo fato de que parte dessas espécies não possui uma distribuição uniforme na
Caatinga e na Mata Atlântica, ocorrendo em manchas, com distâncias bastante variáveis entre si, forçando os
deslocamentos dos indivíduos para forrageamento. Durante esses deslocamentos, observamos, com auxílio de
binóculos, que S. yarrellii consegue alcançar grandes alturas, chegando a voar acima dos 50 m. Ao chegar na área
de alimentação, costuma pousar em árvores altas, antes de descer para forragear.
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Dieta do pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em observações de campo e análise de dados de ciência cidadã
Figura 3 – Alguns registros de alimentação de S. yarrellii obtidos em campo: A) Delilia biflora; B) Melanthera latifolia;
C) Bidens bipinnata; D) Morisonia hastata; E) Sarcomphalus joazeiro; F) Tarenaya longicarpa; G) Jatropha mollissima;
e H) Pinus caribaea. Fotos: Breno Farias (A-F); Egberto Araujo (G) e Ulisses Marques (H).
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Marques UBS, et al.
Tabela 1 – Relação das espécies vegetais que fazem parte da dieta do S. yarrellii.
Família
Espécie
Origem
Parte
consumida
Número de registro/base
de dados
Amaranthaceae
Amaranthus spinosus L.
Exótica
Flor
-
Asteraceae
Bidens bipinnata L.
Exótica
Semente
-
Asteraceae
Bidens pilosa L.
Exótica
Semente
WikiAves (6)
Asteraceae
Blainvillea acmella (L.) Philipson
Nativa
Semente
-
Asteraceae
Delilia biflora (L.) Kuntze
Nativa
Semente
WikiAves (1) eBird (1)
Asteraceae
Emilia sonchifolia (L.) DC.
Exótica
Semente
WikiAves (1)
Asteraceae
Erigeron canadensis L.
Exótica
Semente
WikiAves (1)
Asteraceae
Melanthera latifolia (Gardner)
Cabrera
Nativa
Flor e semente
-
Asteraceae
Tithonia diversifolia (Hemsl.) A.Gray
Exótica
Semente
WikiAves (10) e eBird (3)
Asteraceae
Tridax procumbens L.
Exótica
Semente
WikiAves (2)
Asteraceae
Wedelia goyazensis Gardner
Nativa
Flor e semente
WikiAves (12) eBird (1)
Capparaceae
Morisonia hastata (Jacq.) Christenh.
& Byng
Nativa
Fruto
WikiAves (1)
Casuarinaceae
Casuarina equisetifolia L.
Exótica
Semente
WikiAves (4)
Cleomaceae
Tarenaya longicarpa Soares Neto &
Roalson
Nativa
Semente
WikiAves (6) e (1)
iNaturalist
Euphorbiaceae
Jatropha mollissima (Pohl) Baill,
Nativa
Flor e semente
-
Fabaceae
Neltuma juliflora (Sw.) Raf.
Exótica
Fruto
WikiAves (1)
Lamiaceae
Vitex sp.
Nativa
Semente
-
Malvaceae
Malvastrum coromandelianum (L.)
Garcke
Nativa
Flor e semente
-
Malvaceae
Melochia tomentosa L.
Nativa
Flor e semente
-
Malvaceae
Sida cordifolia L.
Nativa
Flor e semente
-
Nyctaginaceae
Boerhavia diffusa L.
Exótica
Flor e semente
-
Pinaceae
Pinus caribaea Morelet
Exótica
Semente
-
Poaceae
Digitaria bicornis (Lam.) Roem. &
Schult.
Exótica
Semente
-
Poaceae
Megathyrsus maximus (Jacq.)
B.K.Simon & S.W.L.Jacobs
Exótica
Semente
-
Rhamnaceae
Sarcomphalus joazeiro (Mart.)
Hauenschild
Nativa
Flor
-
Santalaceae
Phoradendron quadrangulare
(Kunth) Griseb.
Nativa
Fruto
-
Solanaceae
Solanum sp.
Nativa
Flor
WikiAves (1)
Solanaceae
Nicotiana glauca Graham
Exótica
Flor
-
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Das 28 espécies vegetais identificadas compondo a dieta de S. yarrellii, 10 (35,71%) são da família
Asteraceae, três (10,71%) da família Malvaceae, duas (7,14%) da família Poaceae e duas (7,14%) da família
Solanaceae, que juntas somam mais da metade das espécies identificadas (60,7%) (Figura 4). Nas demais famílias,
houve apenas um registro de alimentação, sendo elas: Amaranthaceae, Capparaceae, Casuarinaceae, Cleomaceae,
Euphorbiaceae, Fabaceae, Nyctaginaceae, Pinaceae, Rhamnaceae, Santalaceae e Lamiaceae.
Figura 4 – Famílias com mais representantes na dieta de S. yarrellii.
Também foi observado um indivíduo de S. yarrellii forrageando em um ramo floral seco de cajueiro
Anacardium occidentale L. O indivíduo bicava constantemente uma região específica do ramo. Após ele
abandonar o local, o ramo seco foi coletado para uma melhor investigação, sendo verificada a presença de ovos
furados de insetos, indicando um possível consumo pela ave (Figura 5).
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Marques UBS, et al.
Figura 5 – Ovos de insetos em ramo floral seco de Anacardium occidentale, aparentemente consumidos por S. yarrellii.
Foto: Ulisses Marques
Discussão
A família Asteraceae demonstrou grande importância para S. yarrellii, uma vez que 10 (35,71%) dos
táxons identificados como fazendo parte da sua dieta pertencem a essa família. Em todas as espécies de Asteraceae
houve consumo de semente, e em apenas duas delas (Melanthera latifolia e Wedelia goyazensis) também houve
consumo da flor. S. yarrellii consumiu sementes de outras onze espécies vegetais, mostrando um padrão diferente
da maioria das aves granívoras brasileiras, a exemplo das espécies do gênero Sporophila que se alimentam
principalmente de sementes de gramíneas. A família Malvaceae foi a segunda família mais consumida com 3
(10,71%) representantes, sendo observado o consumo de sementes e flores nessas espécies. O consumo de flores
também foi registrado em outras oito espécies vegetais. Registrou-se ainda o consumo de frutos em Neltuma
juliflora, Morisonia hastata e Phoradendron quadrangulare. Nossos resultados indicam que, embora S. yarrellii
seja predominantemente granívoro, apresenta flexibilidade alimentar ao incorporar outros recursos vegetais a sua
dieta.
Grande parte da dieta de S. yarrellii é composta por plantas consideradas ervas daninhas tanto em
pastagens como em culturas agrícolas [8], o que representa uma ameaça adicional, sobretudo em áreas em que é
feito o controle dessas plantas com o uso de herbicidas, sujeitando a espécie ao risco de envenenamento [3, 9].
As espécies vegetais mais consumidas por S. yarrellii foram as nativas Melanthera latifolia, Morisonia
hastata e Tarenaya longicarpa e as exóticas Casuarina equisetifolia, Bidens bipinnata e Tithonia diversifolia. As
espécies nativas registradas neste estudo são importantes para a conservação de S. yarrellii, seja para avaliação
de áreas adequadas para soltura/reintrodução, para enriquecimento ambiental de áreas com ocorrência da espécie,
ou para formulação de rações mais adequadas para o manejo da espécie sob cuidados humanos.
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Dieta do pintassilgo-do-nordeste Spinus yarrellii (Audubon, 1839) baseada em observações de campo e análise de dados de ciência cidadã
O consumo de espécies exóticas por S. yarrellii pode demonstrar sua plasticidade e tolerância a alterações
ambientais. A presença de Pinus caribaea na dieta de S. yarrellii era, de certa forma, esperada, uma vez que
alguns pintassilgos do Velho Mundo, como Spinus spinus e Spinus thibetanus, são adaptados a se alimentarem
de espécies do gênero Pinus [10]. Durante a alimentação em Pinus caribaea os indivíduos de S. yarrellii utilizam
o bico para remover as pequenas e duras sementes alojadas entre as escamas dos cones. Comportamento similar
foi observado durante a alimentação em Casuarina equisetifolia, a espécie mais consumida durante o estudo.
O possível consumo de ovos de insetos por S. yarrellii pode ser de importância para suprir uma
necessidade proteica, sobretudo no período reprodutivo, assim como observado em outros granívoros nativos do
Brasil, como os do gênero Sporophila [11]. No entanto, um maior esforço de observações em campo e estudos
complementares de dieta a partir de análise de fezes ou de regurgitos são importantes para elucidar essa questão.
O comportamento de voar em alturas elevadas, em comparação com outros passeriformes do mesmo porte,
com deslocamentos acima de 50 m, pode tornar S. yarrellii vulnerável a outros fatores antrópicos como, por
exemplo, a presença de parques eólicos em sua área de ocorrência, com risco de colisão com aerogeradores. Esse
potencial risco deve ser investigado e considerado em processos de licenciamento ambiental de empreendimentos
eólicos.
Conclusão
Este estudo contribui para o aprofundamento do conhecimento acerca das espécies vegetais que compõem
a dieta de S. yarrellii, bem como para a compreensão de seus hábitos alimentares. Os resultados obtidos
constituem subsídios relevantes para o planejamento e a implementação de estratégias de manejo e conservação
da espécie.
A ampliação do conhecimento sobre sua alimentação possibilita o aprimoramento de programas de
conservação, ao fornecer informações que auxiliam na identificação de novas áreas potenciais de ocorrência, com
base na composição e disponibilidade de recursos vegetais. Além disso, tais informações são fundamentais para
a seleção criteriosa de áreas destinadas à soltura de indivíduos reabilitados ou para reintrodução em áreas onde
ocorreram extinções locais, contribuindo para o sucesso dessas iniciativas.
Adicionalmente, os dados gerados neste estudo podem orientar processos de licenciamento ambiental,
especialmente no contexto da implantação de empreendimentos eólicos, bem como subsidiar a criação e o
planejamento de unidades de conservação voltadas à proteção de S. yarrellii.
Agradecimentos
Agradecemos ao GEF Terrestre e ao FUNBIO, pelo apoio financeiro. Ao ICMBio/CEMAVE,
especialmente a Murilo Arantes, pela elaboração de mapa, e a David Gessner, Diego Mendes e Nilton Carlos,
pelo apoio em campo. Aos proprietários da Fazenda Salambaia, onde foi feita a maior parte da pesquisa, Ricardo
Moraes e Ana Magna, pela receptividade e apoio; ao projeto Pintassilgo-do-nordeste e aos moradores da fazenda
Ana Paula, Adegilson, Pedro e Victor, pelo apoio e convivência.
Declaração de uso de inteligência artificial
Não foi utilizada inteligência artificial em nenhuma etapa do manuscrito.
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Declaração de conflito de interesse
Os autores declaram não haver conflito de interesses, de natureza pessoal, comercial, política, acadêmica
ou financeira, que possa ter influenciado a elaboração, condução ou publicação deste trabalho.
Contribuição dos autores (Taxonomia CRediT)
Papel CRediT
Descrição
Autores
Conceitualização
Ideação do projeto, formulação da pesquisa
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa
Curadoria de dados
Gerenciamento, limpeza e manutenção de
dados
Ulisses Borges Soares Marques
Análise formal
Aplicação de técnicas estatísticas ou
matemáticas
Ulisses Borges Soares Marques
Aquisição de
financiamento
Obtenção de recursos financeiros
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa
Investigação
Execução do estudo, coleta de dados,
experimentos
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa, Ulisses Borges Soares
Marques, Wellington Martins dos
Santos Júnior, Breno de Farias Nilo,
Cristiano Marcelo da Silva
Nascimento, Egberto Araujo
Metodologia
Desenvolvimento ou design de métodos e
procedimentos
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa, Ulisses Borges Soares
Marques
Administração do
projeto
Gestão e coordenação do projeto
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa
Recursos
Fornecimento de materiais, reagentes,
equipamentos
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa
Software
Desenvolvimento de software, códigos ou
algoritmos
Ulisses Borges Soares Marques
Supervisão
Orientação e supervisão geral do projeto
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa
Validação
Verificação da precisão e consistência dos
resultados
Ulisses Borges Soares Marques,
Antônio Emanuel Barreto Alves de
Sousa, Antônio Sérgio Farias Castro
Visualização
Preparação de figuras, gráficos e
representações visuais
Ulisses Borges Soares Marques
Redação – rascunho
original
Preparação do manuscrito inicial
Ulisses Borges Soares Marques
Redação – revisão e
edição
Revisão crítica e edição do manuscrito
Ulisses Borges Soares Marques,
Breno de Farias Nilo, Wellington
Martins dos Santos Júnior, Cristiano
Marcelo da Silva Nascimento,
Egberto Araujo, Antônio Sérgio
Farias Castro, Antônio Emanuel
Barreto Alves de Sousa
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Depósito de dados de pesquisa
Não aplicável.
Referências  
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https://birdsoftheworld.org/bow/species?regionCode=BR
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Disponível em: https://www.wikiaves.com.br/wiki/fringillidae
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Biodiversidade Brasileira
Fluxo Contínuo
v. 16 n.3, 2026
https://revistaeletronica.icmbio.gov.br/index.php/BioBR/
Biodiversidade Brasileira é uma publicação eletrônica científica do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio) que tem como objetivo fomentar a discussão e a difusão de experiências em conservação e manejo de unidades de
conservação, gestão e uso sustentável de recursos naturais renováveis, biodiversidade e espécies ameaçadas, fiscalização e proteção da
biodiversidade e patrimônio natural, e educação e formação para a conservação da sociobiodiversidade.
ISSN: 2236-2886