Fogo e artesanato de capim-dourado no Jalapão - usos tradicionais e consequências ecológicas
DOI:
https://doi.org/10.37002/biodiversidadebrasileira.v1i2.116Palavras-chave:
extrativismo, gestão de recursos naturais, produtos da biodiversidade, produtos florestais não-madeireiros, uso sustentávelResumo
O artesanato de hastes florais de capim-dourado Syngonanthus nitens, Eriocaulaceae) costuradas com as fibras de folhas-jovens de buriti (Mauritia flexuosa, Arecaceae) tornou-se símbolo da região do Jalapão e mesmo de todo o estado de Tocantins na última década. Além do extrativismo vegetal, esta importante atividade econômica envolve o uso do fogo para o estímulo da floração do capim-dourado. Este artigo sintetiza resultados de estudos etno-ecológicos desenvolvidos em cooperação com comunidades rurais e gestores ambientais do Jalapão entre 2002 e 2011. Os estudos centraram-se nos efeitos do extrativismo de hastes de capim-dourado e folhas-jovens de buriti nas populações destas espécies, bem como nos efeitos do uso do fogo para o manejo dos campos úmidos de colheita de capim-dourado. Conforme relatado por extrativistas experientes, queimadas bienais estimulam a floração, ou seja, a produção de hastes do capim-dourado. Além disto, simulações numéricas indicam que queimadas bienais são ideais para o crescimento populacional de capim-dourado em longo prazo. Intervalos de queima mais longos, apesar de não estimularem a floração, não prejudicam as populações desta espécie. As populações de capim-dourado são muito resistentes a queimas, no entanto, apresentaram flutuações anuais significativas em resposta a variações também anuais na precipitação durante o período chuvoso. Estas características são provavelmente compartilhadas por outras dezenas de espécies vegetais dos campos úmidos. A colheita de hastes de capim-dourado após 20 de setembro, como determinado por legislação estadual em Tocantins, não tem efeitos negativos sobre os indivíduos tampouco sobre as populações de capim-dourado. A colheita de folhas-jovens de buriti para a obtenção das fibras utilizadas para costurar o capim-dourado não causam efeitos negativos em indivíduos e populações de buriti, na intensidade praticada no Jalapão. A legislação atual é adequada a todo o estado do Tocantins, pois previne a colheita precoce de capim-dourado, que é extremamente prejudicial à conservação da espécie. Ações para prevenção da colheita precoce devem envolver educação ambiental e fiscalização. Como forma de reduzir a incidência de incêndios de grande extensão na região deve-se capacitar os moradores locais para o uso controlado do fogo. Queimadas controladas nos campos úmidos devem ser feitas com extremo cuidado para evitar incêndios em fisionomias sensíveis ao fogo, como as áreas de ocorrência de buriti.
Downloads
Referências
Appezzato-da-Glória, B. 2003. Morfologia de sistemas subterrâneos: histórico e evolução do Agência Nacional de Águas. 2010. Hidroweb. Disponível em: http://hidroweb.ana.gov.br/ (acessado em agosto de 2010). Andersen, A.N., Braithwaite, R.W., Cook, G.D., Corbett, L.K., Williams, R.J., Douglas, M.M., Gill, A.M., Setterfield, S.A. & Muller, W.J. 1998. Fire research for conservation management in tropical savannas: introducing the Kapalga fire experiment. Australian Journal of Ecology, 23: 95-110. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1442-9993.1998.tb00708.x
Andersen, A.N., Cook, G.D., Corbett, L.K., Douglas, M.M., Eager, R.W., Russell-Smith, J., Setterfield, S.A., Williams, R.J. & Woinarski, J.C.Z. 2005. Fire frequency and biodiversity conservation in Australian tropical savannas: implications from the Kapalga fire experiment. Austral Ecology, 30: 155-167. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1442-9993.2005.01441.x
Anderson, M.K. 1996. The ethnobotany of deergrass, Muhlenbergia rigens (Poaceae): its uses and fire management by California Indian Tribes. Economic Botany, 50: 409-422. DOI: https://doi.org/10.1007/BF02866523
Arnold, J.E.M. & Pérez, M.R. 2001. Can non-timber forest products match tropical forest conservation and development objectives? Ecological Economics, 39: 437-447. DOI: https://doi.org/10.1016/S0921-8009(01)00236-1
Barbosa, A.S., Ribeiro, M.B. & Schmitz, P.I. 1990. Cultura e ambiente em áreas do sudoeste de Goiás. In: M.N. Pinto (ed.). Cerrado caracterização, ocupação e perspectivas. pp. 67-100. Editora Universidade de Brasília.
Barbosa, A.S. & Schmitz, P.I. 1998. Ocupação indígena do Cerrado: esboço de uma história. pp. 3-42. In: S.M. Sano, S.P. Almeida (ed.) Cerrado ambiente e flora. Embrapa.
Barbosa, R.I. & Fearnside, P.M. 2005. Above-ground biomass and the fate of carbon after burning in the savannas of Roraima, Brazilian Amazonia. Forest Ecology and Management, 216: 295-316. DOI: https://doi.org/10.1016/j.foreco.2005.05.042
Bede, L.C. 2006. Alternativas para o uso sustentado de sempre-vivas: efeitos do manejo extrativista sobre Syngonanthus elegantulus Ruhland (Eriocaulaceae). Tese (Doutorado em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre. Universidade Federal de Minas Gerais. 184p.
Belcher, B. & Schreckenberg, K. 2007. Commercialisation of non-timber forest products: a reality check. Decelopment Policy Review, 25: 355-377. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1467-7679.2007.00374.x
Berkes, F. 2008. Sacred ecology, 2 ed. Routledge. Berkes, F. 2009. Revising the commons paradigm. Journal of Natural Resources Policy Research, 1: 261-364. DOI: https://doi.org/10.1080/19390450903040454
Bond, W.J. & Keeley, J.E. 2005. Fire as a global ‘herbivore': the ecology and evolution of flammable ecosystems. Trends in Ecology and Evolution, 20: 387-394. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tree.2005.04.025
Bond, W.J., Woodward, F.I. & Midgley, G.F. 2005. The global distribution of ecosystems in a world without fire. New Phytologist, 165: 525-538. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1469-8137.2004.01252.x
Hoffmann, W.A. 1999. Fire and population dynamics of woody plants in a neotropical savanna: Matrix model projections. Ecology, 80: 1354-1369. DOI: https://doi.org/10.1890/0012-9658(1999)080[1354:FAPDOW]2.0.CO;2
ISPN. 2010. Cerrado que te quero Vivo! Produtos e Meios de vida sustentáveis apoiados pelo PPP- ECOS, http://www.ispn.org.br/arquivos/catalogo-final-baixa-completocom-capa.pdf edn. Instituto Centro de Vida, Brasília DF. http://www.ispn.org.br/arquivos/catalogo-final-baixa-completocom-capa.pdf.
Laird, S.A., McLain, R.J., Wynberg, R.P. (eds.). 2010. Wild product governance: finding policies that work for non-timber forest products. Earthscan. DOI: https://doi.org/10.4324/9781849775199
Marinho, L. 2011a. O asfalto está chegando ao Jalapão, In O Eco. http://www.oeco.com.br/saladaverde/24875-o-asfalto-esta-chegando-no-jalapao.
Marinho, L. 2011b. PCHs são planejadas no Jalapão, In O Eco. http://www.oeco.com.br/saladaverde/24821-pchs-sao-planejadas-no-jalapao.
McGregor, S., Lawson, V., Christophersen, P., Kennet, R., Boyden, J., Bayliss, P., Liedloff, A., McKaige, B. & Andersen, A.N. 2010. Indigenous wetland burning: conserving natural and cultural resources in Australia's World Heritage-listed Kakadu National Park. Human Ecology, 38: 721-729. DOI: https://doi.org/10.1007/s10745-010-9362-y
Miranda, H.S., Neto, W.N. & Neves, B.M.C. 2010. Caracterização das queimadas de Cerrado. p. 23-34. In: H.S.
Miranda (ed.) Efeitos do regime do fogo sobre a estrutura de comunidades de Cerrado: resultados do Projeto Fogo. Ibama.
Miranda, H.S., Sato, M.N., Neto, W.N. & Aires, F.S. 2009. Fires in the Cerrado, the Brazilian savanna. p. 427-450. In: M.A. Cochrane (ed.). Tropical fire ecology. Praxis, Chischester, UK. Mistry, J. 1998. Fire in the cerrado (savannas) of Brazil: an ecological review. Progress in Physical Geography, 22: 425-448. DOI: https://doi.org/10.1007/978-3-540-77381-8_15
Munhoz, C.B.R. & Felfili, J.M. 2006. Floristic of the herbaceous and subshrub layer of a moist grassland in the Cerrado Biosphere Reserve (Alto Paraíso de Goias), Brazil. Edinbugh Journal of Botany, 63: 343-354. DOI: https://doi.org/10.1017/S0960428606000539
Munhoz, C.B.R. & Felfili, J.M. 2007. Florística do estrato herbáceo-subarbustivo de um campo limpo úmido em Brasília, Brasil. Biota Neotropica, 7: 205-215. DOI: https://doi.org/10.1590/S1676-06032007000300022
Myers, N. 2003. Biodiversity Hotspots Revisited. BioScience, 53:916-917. DOI: https://doi.org/10.1641/0006-3568(2003)053[0916:BHR]2.0.CO;2
Nepstad, D. & Schwartzman, S. 1992. Non-timber products from tropical forests: evaluation of a conservation and development strategy. Advances in Economic Botany 9, The New York Botanical Garden Press.
Pereira, A. 2009. Sazonalidade das queimadas no Parque Estadual do Jalapão, TO, no bioma Cerrado. pp. 2897-2903. In: Anais XIV Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. INPE.
Pires, M.O. & Santos, I.M. eds. 2000. Construindo o Cerrado sustentável: experiências e contribuições das ONGs. Rede Cerrado de Organizações Não Governamentais, Brasília.
Pivello, V.R. & Norton, G.A. 1996. FIRETOOL: an expert system for the use of prescribed fire in Brazilian savannas. Journal of Applied Ecology, 33: 348-356. DOI: https://doi.org/10.2307/2404756
Pivello, V.R., Oliveras, I., Miranda, H.S., Haridasan, M., Sato, M.N. & Meirelles, S.T. 2010. Effect of fires on soil nutrient availability in an open savanna in Central Brazil. Plant Soil. 337:111-123. DOI: https://doi.org/10.1007/s11104-010-0508-x
Ramos-Neto, M.B. & Pivello, V.R. 2000. Lightning fires in a Brazilian savanna national park: rethinking management strategies. Environmental Management, 26: 675-684. DOI: https://doi.org/10.1007/s002670010124
Redford, K.H. & Padoch, C. (eds.) 1992. Conservation of neotropical forests. Columbia University Press.
Russell-Smith, J., Whitehead, P.J., Cook, G.D. & Hoare, J.L. 2003. Response of Eucalyptus-dominated savanna to frequent fires: lessons from Munmarlary, 1973-1996. Ecological Monographs, 73: 349-375. DOI: https://doi.org/10.1890/01-4021
Sampaio, M.B., Schmidt, I.B. & Figueiredo, I.B. 2008. Harvesting effects and population ecology of the buriti palm (Mauritia flexuosa L. f.; Arecaceae) in the Jalapão region, Central Brazil. Economic Botany, 62: 171-181. DOI: https://doi.org/10.1007/s12231-008-9017-8
Govender, N., Trollope, S.W. & Van Wilgen, B.W. 2006. The effect of fire season, fire frequency, rainfall and management on fire intensity in savanna vegetation in South Africa. Journal of Applied Ecology, 43:748-758. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1365-2664.2006.01184.x
Savadogo, P., Zida, D., Sawadogo, L., Tiveau, D., Tigabu, M. & Odén, P.C. 2007. Fuel and fire characteristics in savanna-woodland ofWest Africa in relation to grazing and dominant grass type. International Journal of Wildland Fire, 16:531-539. DOI: https://doi.org/10.1071/WF07011
Sawyer, D., Scardua, F. & Pinheiro, L. 1999. Extrativismo vegetal no Cerrado: análise de dados de produção 1980-1993. ISPN.
Schmidt, I.B. 2005. Etnobotânica e ecologia populacional de Syngonanthus nitens: "sempreviva" utilizada para artesanato no Jalapão, TO. Dissertação (Mestrado em Ecologia). Universidade de Brasília. 91p.
Schmidt, I.B. 2011. Effects of local ecological knowledge, harvest and fire on golden-grass (Syngonanthus nitens, Eriocaulaceae), a non-timber forest product (NTFP) species from the Brazilian savanna. Tese (Doutorado em Botânica, Ecologia, Evolução e Biologia da Conservação). University of Hawai'i at Manoa. 186p.
Schmidt, I.B., Figueiredo, I.B., Borghetti, F. & Scariot, A.O. 2008. Produção e germinação de sementes de "capim dourado", Syngonanthus nitens (Bong.) Ruhland (Eriocaulaceae): implicações para o manejo. Acta Botanica Brasilica, 22: 37-42. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-33062008000100005
Schmidt, I.B., Figueiredo, I.B. & Scariot, A.O. 2007. Ethnobotany and effects of harvesting on the population ecology of Syngonanthus nitens (Bong.) Ruhland (Eriocaulaceae), a NTFP from Jalapão Region, Central Brazil. Economic Botany, 61: 73-85. Schullery, P. 1989. The fires and fire policy. BioScience, 39: 686-694. DOI: https://doi.org/10.1663/0013-0001(2007)61[73:EAEOHO]2.0.CO;2
Seplam. 2003a. Plano de manejo do Parque Estadual do Jalapão, 131p. Seplam. 2003b. Zoneamento Ecológico Econômico de Tocantins, www.seplan.to.gov.br
Shea, R.W., Shea, B.W. & Kauffman, J.B. 1996. Fuel biomass and combustion factors associated with fires in savanna ecosystems of South Africa and Zambia. Journal of Geophysical Research, 101: 23551-23568. DOI: https://doi.org/10.1029/95JD02047
Simon, M.F., Grether, R., Luciano P. de Queiroz, Skema, C., R. Toby Pennington & Hughes, C.E. 2009. Recent assembly of the Cerrado, a neotropical plant diversity hotspot, by in situ evolution of adaptations to fire. PNAS, 106: 20359-20364. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.0903410106
Stubben, C. & Milligan, B. 2007. Estimating and analyzing demographic models using the popbio package in R. Journal of Statistical Software, 22: http://www.jstatsoft.org/. DOI: https://doi.org/10.18637/jss.v022.i11
Varghese, A. & Ticktin, T. 2008. Regional variation in non-timber forest product harvest strategies, trade, and ecological impacts: the case of Black Dammar (Canarium strictum Roxb.) use and conservation in the Nilgiri Biosphere Reserve, India. Ecology and Society, 13: 11. DOI: https://doi.org/10.5751/ES-02555-130211
Whelan, R.J. 1995. The ecology of fire. Cambridge University Press. Wilgen, B.W.v., Govender, N. & Biggs, H.C. 2007. The contribution of fire research to fire management: a critical review of a long-term experiment in the Kruger National Park, South Africa. International Journal of Wildland Fire, 16: 519-530. DOI: https://doi.org/10.1071/WF06115
Williams, R.J., Gill, A.M. & Moore, P.H.R. 1998. Seasonal changes in fire behavior in a tropical savanna in Northern Australia. International Journal of Wildland Fire, 8: 227-239. DOI: https://doi.org/10.1071/WF9980227
Yibarbuk, D., Whitehead, P.J., Russell-Smith, J., Jackson, D., Godjuwa, C., Fisher, A., Cooke, P., Choquenot, D. & Bowman, D.M.J.S. 2001. Fire ecology and aboriginal land management in Central Arnhem Land, Northern Australia: a tradition of ecosystem management. Journal of Biogeograhy, 28: 325-343. DOI: https://doi.org/10.1046/j.1365-2699.2001.00555.x
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2011 Isabel Belloni Schmidt, Maurício Bonesso Sampaio, Isabel Benedetti Figueiredo, Tamara Ticktin

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Os autores retêm os direitos autorais dos trabalhos publicados, que podem ser reutilizados e divulgados em outros meios, desde que a fonte de publicação original (revista Biodiversidade Brasileira) seja citada.







